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Nordeste exporta mamão de assentados
Exportadoras capixabas montam pólo de produção no RN, em parceria com pequenos
Jornal O Estado de São Paulo, 08 de setembro de 2004.
Beth Melo
São Paulo é o maior mercado consumidor de mamão do País. Os vírus do mosaico e da meleira, porém, praticamente tornaram inviável a cultura no Estado. Assim, São Paulo consome os frutos colhidos em pomares do Espírito Santo e da Bahia, os maiores produtores da fruta no País. No ano passado, a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado (Ceagesp) recebeu 137.082 toneladas de mamão, principalmente do ES e da BA.
A capixaba Caliman, uma das maiores produtoras e exportadoras de mamão do País, atende a parte da demanda interna, e também às exportações, que têm aumentado ano a ano. Tanto que, há quatro anos, a empresa começou a expandir seus pomares e buscar parcerias no Nordeste, dando início a experiências com assentamentos no Rio Grande do Norte. A iniciativa deu certo e atraiu mais uma empresa do setor: a também capixaba Gaia.
Vale do Lírio [/INTERTITULO]- O ponto de partida para os investimentos da Caliman Nordeste S. A. no Estado foi o Assentamento Vale do Lírio 1, em São José do Mipibu (RN), próximo a Natal, uma capoeira com área superior a 202 hectares, sendo 126 hectares de área de cultivo conjunta, três por família. Os assentados, no total de 42 famílias, formaram a Associação Vale do Lírio 1, iniciaram o plantio de 30 hectares de mamão, e estão provando que os assentamentos podem dar certo, desde que haja recursos, tecnologia e garantia de venda da produção.
O dinheiro para o investimento e o custeio do pomar foi obtido do Banco do Nordeste, via Pronaf A, e a tecnologia, da Caliman, com tradição na cultura e na exportação, que, além de assessorar as etapas da produção e da colheita, compra, exporta e vende a produção dos assentados para a Europa e, em menor escala, para o Canadá. Parte da produção vai para o mercado interno.
De acordo com o gerente-administrativo da Caliman Nordeste, o agrônomo José Fernandes Côrti, a colheita dos 30 hectares alcançou 2.500 toneladas por mês ou 80 toneladas de mamão por ciclo (que dura de 24 a 28 meses). "Cada módulo de 15 hectares deu uma receita bruta anual de R$ 700 mil, sendo R$ 350 mil para despesas e investimentos e R$ 350 mil de lucro, que foi partilhado entre as famílias."
Padrão [/INTERTITULO]- "Entramos com as sementes, a tecnologia, e garantimos a compra da produção da fruta que atenda ao padrão exigido pela empresa", diz Côrti. A Caliman pega a produção no assentamento e leva a fruta para seleção e embalagem no packing house, no Distrito de Macaíba, na Grande Natal. Cerca de 60% das frutas atendem ao padrão da empresa.
"Embalamos 800 toneladas de mamão por mês e a projeção, para um ano, é chegar a 2.500 toneladas ao mês." O Carrefour Norte-Nordeste compra 20% da produção destinada ao mercado interno, e os 20% restantes a Caliman vende para o Ceasa de Recife (PE). "Se o produtor preferir, ele pode vender diretamente a sua produção."
Em dezembro do ano passado, uma missão dos Estados Unidos visitou a área do assentamento, que está sendo monitorada para exportar a fruta para o mercado americano. Para tanto, a Caliman contratou a Delta Assessoria, que instalou armadilhas para captura de mosca-das-frutas. Ao mesmo tempo, a Delegacia Federal do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento iniciou uma campanha para erradicação de viroses, segundo o fiscal federal do órgão na região, Luzivan Raimundo de Souza.
Souza foi, aliás, em parte, o responsável pela ida da Caliman para o Estado.
Entre 1997 e 1998, ele foi convidado a participar, em Linhares (ES), de um projeto da Caliman, de exportação de mamão para os EUA. "A situação era absurda: a fruta teria de percorrer 800 quilômetros até o Aeroporto do Galeão, no Rio", diz. Conversou com o diretor-técnico da empresa, Geraldo Ferreguette. "A empresa pagava até o aluguel do uso do solo na carreta no pátio do aeroporto e todo o lucro do mamão ficava na estrada."
Sugeriu a ida da empresa para o Rio Grande do Norte, por causa da logística.
Assim, o diretor da Caliman visitou o Estado e encontrou um assentamento do Incra que tinha interesse em firmar parceria. "Qualquer cidadão que quiser produzir e exportar é nosso parceiro", diz Côrti.
"O mercado do Nordeste mudou muito depois que chegamos à região." Ele informa que a empresa firmou mais três parcerias com assentados: no Assentamento Gonçalves Soares, em São José do Mipibu, com módulos de plantio de 11 hectares e 29 famílias; no Assentamento Rosário, em Ceará-Mirim, com módulos de 7,5 hectares, e 20 famílias e no Assentamento São Sebastião 3, em Ielmo Marinho, com módulos de 8,5 hectares e 23 famílias. Em 2008, os assentados terminarão de pagar os recursos do Pronaf. "Como pagamos em dia, temos um desconto de 45%", diz o presidente da Associação Vale do Lírio, Antonio Vieira.
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